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Literature-se!

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Absinto: uma história cultural

de Phil Baker
Editora Nova Alexandria, 2010

Você já bebeu absinto? Eu nunca. Porém, esta bebida sempre me instigou muito, por causa da sua íntima relação com as artes, principalmente literatura e pintura. O absinto foi o símbolo do período chamado “fin de siècle” (fim do século XIX), com seu auge na década de 1890, tendo principalmente Paris como cenário intelectual mundial, seguida por Londres. Desde meados de 1850, a concepção de arte vinha sendo redefinida com os movimentos artísticos que surgiam a cada momento, como realismo, impressionismo e pós-impressionismo. Mas o que o absinto tem a ver com isso? A bebida se tornou um ritual diário na vida de escritores e pintores. Todos se reuniam nos cafés parisienses a partir das 17 h e entravam num mundo de “fadas verdes”. A bebida de cor verde fluorescente tem sua origem no uso medicinal da planta chamada artemísia, cujas propriedades amargas eram usadas para tratar vermes e infecções intestinais. A bebida a base da planta era usada no tratamento de soldados franceses nas batalhas na Algéria e quando estes retornaram à França, trouxeram o hábito de consumir o absinto, que passou então a ser preparado de forma especial, através de uma mistura de artemísia e outras especiarias. Inúmeros pintores e escritores retrataram em suas obras o hábito de beber absinto nos cafés, além de que muitos confessaram que só conseguiam produzir sob efeito da bebida. O grande problema é que o absinto começou a causar problemas sociais. O número elevado de pessoas com problemas neurológicos e hepáticos fez com que o absinto começasse a ser perseguido. A artemísia contém substâncias chamadas tujonas, as quais em altas concentrações causam problemas de toxicidade neuronal, como convulsões, alucinações e até mesmo a morte. As concentrações de tujona na bebida no século XIX eram extremamente elevadas e por isso os países começaram a proibir sua produção já logo na primeira década do século XX, sendo banido oficialmente da Europa até 1923. É claro que a produção ilegal continuou existindo e muitos intelectuais continuaram consumindo. No final dos anos 1980, o absinto voltou a ser liberado nos países europeus, porém agora com concentrações de tujona mínimas. Portanto, mesmo tomando absinto hoje em dia, você nunca terá a experiência que artistas como Van Gogh, Toulouse-Lautrec, Oscar Wilde, Ernest Hemingway e Pablo Picasso tiveram. Muitos historiadores associam a fase de ouro do absinto, no final do século XIX, como uma época em que a civilização parecia de fato ter encontrado seu rumo, com um período estável de relativa paz e avanços tecnológicos e científicos na humanidade. A única preocupação dos intelectuais parecia ser sua devoção à arte. O fim dessa época dourada coincide com a Primeira Guerra Mundial e a decadência da humanidade com o totalitarismo que viria a seguir.
Para quem gosta de história da literatura e da arte, recomendo este livro. Sua linguagem é fácil e atraente, cheio de referências históricas sobre escritores e pintores. O trabalho de pesquisa do autor foi minucioso e vale a pena ser conferido.

Leopoldo C. Baratto para o @lcontexto