Este site pertence a Leopoldo C. Baratto, fundador e coordenador do PlantaCiência. 2019.

Maria-sem-vergonha

Elisa Lucinda

Estupidamente bela

a beleza dessa Maria sem-vergonha rosa

soca meu peito esta manhã!

Estupidamente funda,

a beleza, quando é linda demais,

dá uma imagem feita só de sensações,

de modo que, apesar de não se ter a consciência desse todo,

naquele instante não nos falta nada.

É um pá, um tapa, um golpe,

um bote que nos paralisa, organiza,

dispersa, conecta e completa!

Estonteantemente linda

a beleza doeu profundo no peito essa manhã.

Doeu tanto que eu dei de chorar,

por causa de uma flor comum e misteriosa do caminho.

Uma delicada flor ordinária,

brotada da triavilidade do mato,

nascida do varejo da natureza,

me deu espanto!

Me tirou a roupa, o rumo, o prumo

e me pôs a mesa...

é a porrada da beleza!

Eu dei de chorar de uma alegria funda

quase tristeza.

Acontece às vezes e não avisa.

A coisa estarrece e abre-se um portal.

É uma dobradura do real, uma dimensão dele,

uma mágica à queima roupa sem truque nenhum.

Porque é real!

Doeu a flor em mim tanto e com tanta força

que eu dei de soluçar!

O esplendor do que eu vi era pancada,

era baque e era bonito demais!

Penso às vezes, que vivo para esse momento

indefinível, sagrado, material, cósmico,

quase molecular.

Penso que é mistério,

descrevê-lo exato perambula ermo

dentro da palavra impronunciável.

Sei que é dessa flechada de luz

que nasce o acontecimento poético.

Poesia é quando a iluminação zureta,

bela e furiosa desse espanto

se transforma em palavra!

A florzinha distraida

existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã,

doeu profundo como se passasse do ponto.

Como aquele ponto do goso,

como aquele ápice do prazer

que a gente pensa que vai até morrer!

Como aquele máximo indivisível,

que, de tão bom, é bom de doer,

aquele momento em que a gente pede "para".

Querendo e não querendo mais querer,

porque mais do que aquilo não se aguenta mais,

sabe como é?

Violenta às vezes, de tão bela a beleza é!

Araucária

Pablo Neruda

Todo o inverno, toda a batalha, todos os ninhos do molhado ferro, em tua firmeza atravessada de aragem, em tua cidade silvestre se levantam.

 

O cárcere renegado das pedras, os fios submersos do espinho, fazem de tua aramada cabeleira um pavilhão de sombras minerais.

 

Pranto eriçado, eternidade da água, monte de escamas, raio de ferraduras, tua atormentada casa se constrói com pétalas de pura geologia.

O alto inverno beija a tua armadura e te cobre de lábios destruídos: a primavera de violento aroma rompe a tua sede em tua implacável estátua:

e o grave outono espera inutilmente derramar ouro em tua estatura verde.

Peumo

Pablo Neruda

Parti uma folha lajeada do matagal:

um doce aroma das bordas partidas

me tocou como asa profunda

que voasse da terra, de longe, de nunca.

Peumo, então vi tua folhagem, tua verdura minuciosa,

encrespada, cobrir com seus impulsos teu tronco

terrenal e tua largueza olorosa.

Pensei como és toda a minha terra:

minha bandeira deve ter aroma de peumo

ao despregar-se,um odor de fronteiras

que de súbito entram em ti com toda a pátria

em sua corrente.

Peumo puro, fragrância de anos e cabeleiras no vento,

na chuva, sob a curvatura da montanha,

com um ruído de água que baixa até nossas raízes,

ó amor, ó tempo agreste cujo perfume pode nascer,

desenredar-se de uma folha e encher-nos

até derramarmos a terra, como velhos cântaros enterrados.

Botânica

Pablo Neruda

O sanguinário litre e o benéfico boldo

disseminam seu estilo em irritantes beijos de animal esmeralda ou antologias de águas escuras entre as pedras.

 

A gomeleira no cimo da árvore

estabelece sua dentadura nívea e a selvagem aveleira constrói seu castelo de páginas e gotas. A artemísia e a chépica rodeiam os olhos do orégano e o radiante louro da fronteira perfuma as longínquas intendências.

 

Quila e quelenquelén das manhãs. Idioma frio das fúcsias, que se vai por pedras tricolores gritando viva o Chile com a espuma!

 

O dedal de ouro espera os dedos da neve e roda o tempo sem seu matrimônio, que uniria os anjos do fogo e do açúcar.

 

A caneleira mágica lava na chuva sua racial ramagem,e precipita os seus lingotes verdes sob a vegetal água do sul.

 

A doce aspa do olmo com fanegas de flores sobe as gotas do copihue rubro para conhecer o sol das guitarras.

 

A agreste delgadilla e o celestial poejo bailam nos prados com o jovem orvalho recentemente armado pelo rio Toltén.

 

A indecifrável doca decapita a sua púrpura na areia e conduz seus triângulos marinhos até as secas luas litorais.

 

A brunida papoula, relâmpago e ferida, dardo e boca, sobre o trigo queimante põe as suas pontuações escarlates.

A tiliácea evidente condecora os seus mortos e tece suas famílias com águas mananciais e medalhas de rio.

 

O paico arranja lâmpadas no clima do sul, desamparado, quando vem a noite do mar jamais adormecido.

 

O roble dorme sozinho, muito vertical, muito pobre, muito mordido, muito decisivo no prado puro com a sua roupa de maltrapilho maltratado e sua cabeça cheia de solenes estrelas

Meditação a beira de um poema

Adélia Prado

Podei a roseira
no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro

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