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O uso medicinal da maconha é uma realidade que não tem mais volta

Autor: Denis R. Burgierman

Diferentes tipos de maconha têm mostrado utilidade enorme em tratamentos de uma variedade enorme de males. A Cannabis já revolucionou os tratamentos de dor crônica, um mal muitas vezes sem cura que afeta milhões no Brasil, e que infelizmente aguarda por boa parte daqueles entre nós que vivermos o suficiente: só os muito sortudos chegam sem dor à velhice. Os resultados contra convulsões e epilepsias que não respondiam a nenhum outro tratamento são impressionantes, a ponto de ser tentador usar a inadequada palavra "milagre" para descrevê-los. Impressionantes também têm sido alguns casos de esclerose múltipla, um mal terrível, degenerativo e letal que, teoricamente, deveria ser irreversível – outro dia encontrei um paciente que conheço há anos e ele evidentemente está muito melhor hoje do que estava há uma década, caminhando quilômetros depois que seus médicos haviam declarado que ele nunca sairia da cadeira de rodas.

No final de semana tive contato com pesquisas sobre outras doenças. Há uma empolgação enorme com o uso para tratar autismo entre crianças – os relatos são de que certas variedades da planta melhoram praticamente todos os sintomas, facilitando inclusive a conexão emocional dos pacientes. O uso para melhorar a qualidade de vida em pacientes com câncer é tradicional e consagrado, mas não faltam médicos suspeitando que os princípios ativos da planta podem também reduzir tumores, e quem sabe frear o avanço da doença. Parkinson, Alzheimer, intolerâncias alimentares, ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, até dependência de drogas – há pesquisas animadoras rolando sobre tudo isso.

Hoje se sabe que maconha é uma planta complexa, que contém uma enorme quantidade de princípios ativos. Tudo indica que vários deles têm valor medicinal. Há um fuzuê cercando um deles, o até há pouco desconhecido CBD, que não dá efeito psicoativo e parece ser um remédio espetacular sem nenhuma contraindicação. Mas o THC – velho conhecido, esse sim ligado ao "barato" da droga – também é útil para várias dessas doenças. E há centenas de outras substâncias, a maioria com efeito ainda bem pouco entendido. Algumas pesquisas dão a entender que cada paciente diferente se dá melhor com uma combinação específica desses ingredientes – e que todos juntos normalmente funcionam melhor que um sozinho.

Toda essa animação tem a ver com a descoberta do sistema endocanabinoide, um sistema de receptores nas paredes das células de nosso corpo todo, ativados por substâncias que nós mesmos produzimos, semelhantes aos químicos da maconha. Suspeito que você não tenha nem estudado esse sistema na escola – mais grave: boa parte dos médicos de hoje não o estudou nem na faculdade. É que é tudo muito novo. Mas hoje está claro que ele é fundamental para a modulação de praticamente todos os processos complexos do corpo humano, e que está envolvido em todas as doenças crônicas que nos afetam. Sério: todas.


Enquanto isso, do ponto de vista governamental, o Brasil está ficando para trás: é um dos países mais atrasados do Ocidente. Enquanto 50 mil pacientes se beneficiam legalmente desses novos remédios no pequeno Israel, aqui no nosso país-continente há um total de só 37 pessoas com acesso a maconha legal, concedido por tribunais, graças a um grupo de heroicos advogados ativistas, que trabalham de graça para mudar o status da planta.


Pressionada, a agência que aprova novos medicamentos no Brasil, a Anvisa, é excessivamente restritiva e mata qualquer possibilidade de que surja um setor produtivo vibrante no país, ou de que pacientes possam cultivar seu próprio remédio, tratando-se a baixos custos, em vez de pagar milhares de reais por mês por um produto importado.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2019/Da-erva-do-diabo-ao-rem%C3%A9dio-da-vov%C3%B3

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