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Aqua Tofana: a história da mulher que envenenou maquiagem para ajudar mais de 600 mulheres a matar seus maridos

Por

Gabriele Basso

Com uma mistura conhecida como Aqua Tofana, Giulia Tofana encontrou uma solução criativa para as mulheres que precisavam sair de relacionamentos abusivos. Durante o Renascimento, em uma era de casamentos arranjados que não deixavam possibilidade de divórcio, a única saída de uma união infeliz era a morte. As mulheres eram frequentemente forçadas a se casar por suas famílias. Uma vez casadas, os maridos tinham controle total sobre suas esposas, e as mulheres geralmente eram completamente impotentes. Os maridos podiam espancá-las sem enfrentar qualquer punição ou submetê-las a todos os tipos de tratamentos cruéis. Giulia Tofana, nascida em Palermo, matou centenas de homens na Itália do século XVII quando transformou seu negócio de maquiagem em uma fábrica de venenos, vendendo uma mistura mortal - a Aqua Tofana - que era composta por arsênico, chumbo e Atropa belladonna. Em meados dos anos 1600, Giulia vendeu cosméticos no sul da Itália e suas receitas especiais para o Aqua Tofana continham arsênico suficiente para matar sem deixar vestígios. Seu objetivo era manter seu veneno em segredo para que ela pudesse continuar a vender a mistura potente, e com isso conseguiu enganar as autoridades por quase 50 anos. O veneno mortal estava disfarçado: como cosmético típico de uma mulher ou até mesmo um óleo de cura religioso que nenhum marido suspeitaria. Primeiro, ela disfarçou a Aqua Tofana como uma maquiagem em pó. As mulheres podiam colocar o pequeno recipiente em seus toucadores ao lado de outras loções e perfumes sem levantar suspeitas de ninguém. Mas seu segundo disfarce foi ainda mais engenhoso: ela vendeu a Aqua Tofana escondida em pequenos frascos com a imagem de São Nicolau de Bari. O frasco afirmava ser "Maná de São Nicolau de Bari", uma pomada especial de cura que alegava ser objeto devocional. Bastava misturar o veneno em alimentos ou em bebidas, já que ele não tinha gosto, que as primeiros sintomas apareciam: primeiro semelhantes à gripe, e conforme as doses iam aumentando, o quadro piorava, até que após a quarta dose o paciente morria. A Atropa belladonna já era popular entre as mulheres italianas, que desde o Renascimento buscavam um padrão de beleza caracterizado pela dilatação das pupilas. No entanto,  além de pupilas dilatadas (midríase), esse recurso podia causar cegueira, fato que fez o uso da planta para essa finalidade cair em desuso pouco a pouco. A beladona possui alcaloides tropânicos que relaxam os músculos lisos, tem ação antiespasmódica e alucinógena e pode ser mortal até em pequenas doses. O arsênio é absorvido pelo organismo humano principalmente por inalação e ingestão. O arsênio inorgânico trivalente interage fortemente com grupos sulfidrilas de moléculas orgânicas; diversas enzimas são afetadas com isso, ocasionando danos em vários sistemas celulares. Basta uma dose de 140 miligramas de arsênio inorgânico trivalente para causar a morte de um ser humano adulto por dano à respiração celular, em poucas horas ou dias. O grande trunfo da Aqua Tofana era a ausência de rastros no organismo do paciente; exames do cadáver indicavam apenas uma gripe muito forte. Apesar de não deixar suspeitas, Giulia Tofana não escapou impune. Seu esquema foi revelado por uma cliente, que arrependida de ter comprado o veneno para matar seu marido, entregou Giulia às autoridades. Ela acabou presa, julgada e executada juntamente com sua filha e funcionários.

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