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As benzedeiras e o ato sagrado de curar

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Por

Gilberto C. Oliveira

Revisão: Leopoldo C. Baratto

O ato de benzer é um ato sagrado. Particularmente, ele carrega em si toda uma ancestralidade e um conjunto de conhecimentos empíricos de uma força estrondosa. Acredita-se que o dom de curar escolhe o indivíduo, que em sua maioria são mulheres, as geradoras da vida, que iniciaram as práticas de cura curando outras mulheres, muita das vezes, realizando os partos naturais.

Tenho muitas vivências na comunidade Passagem, interior do Pará, localizada entre o Lago Grande de Monte Alegre e a Rodovia PA-255, com cerca de 700 habitantes. Lá ainda é uma região, assim como outros cantos dos interiores do Brasil onde o acesso aos serviços públicos de saúde é escasso, com a presença das benzedeiras, que seguem os passos de suas mães e avós, transmitindo o conhecimento tradicional de geração a geração.

Febre, mau-olhado, torções e gripe são algumas das enfermidades tratadas pelas mãos das benzedeiras através de plantas medicinais e rezas. Minha avó e minha mãe me levaram algumas vezes até elas. Aroeira, andiroba, cumaru, sumaúma, acapurana e diversas outras plantas amazônicas, preparadas de diversas maneiras (chás, macerações, banhos, sumos, etc.), são utilizadas no processo de cura.

As plantas encontradas na Amazônia, como o mastruz (Dysphania ambrosioides) e o jambú (Acmella oleracea), são usadas em doenças do trato respiratório, como tuberculose, e as benzedeiras as usam em diversos remédios caseiros. Estudos científicos apontam evidências da eficácia dessas plantas no âmbito do tratamento de doenças das vias aéreas, o que converge com os estudos etnobotânicos dessas populações. Deve-se deixar bem claro, no entanto, que esse conhecimento tradicional ainda necessita de mais estudos científicos para validar o uso dessas plantas e garantir a sua segurança e eficácia.

Recente publicação das pesquisadoras Suzana Hirooka e Talizia Hirooka Medeiros, intitulada “Remédios do Mato”, traz relatos de rezadeiras e rezadores dos quilombos situados em Queimada Nova, Piauí. Este trabalho apresenta o rico conhecimento popular das diversas rezas e respectivas plantas utilizadas pelos quilomobolas, como o mulungu (Erythrina velutina) usada para dores abdominais, juazeiro (Zizyphus joazeiro) utilizada para tratamento de caspas e ainda o melão de São Caetano (Momordica charantia) usado nas rezas na forma de banho para tratar gripes e sinusites, tendo sua ação antidiabética comprovada por diversos estudos e que citam possíveis tratamentos para doenças do trato respiratório.

De antemão percebe-se que o conhecimento tradicional é extremamente importante e valiosa fonte de informações, que devem ser consideradas como narrativas essenciais e potenciais em tratamentos de saúde, e novos horizontes para a pesquisa e interações sociais. As benzedeiras deixam claro para as pessoas que lhes procuram quando há necessidade da consulta com um médico, pois muitos casos não podem ser resolvidos com a reza ou chás medicinais, limitações que são reconhecidas por elas.

Ao entrar em contato com esse conhecimento é necessário estar aberto ao um outro modo de enxergar a saúde, perceber que essas mulheres carregam consigo histórias, curas e práticas de saúde que ajudaram a comunidade a sobreviver até os dias atuais e permitiram que a cultura das benzedeiras se propagassem através dos séculos. Observar a real importância dessas protagonistas é entender de que modo os diversos espaços nos territórios brasileiros construíram a sua própria história de tratar doenças, utilizando muita vezes as plantas medicinais, essas sendo recurso principal e também de destaque. Há um elo entre a natureza e as benzedeiras, elas mesmas falam sobre o “dom” e sobre os sentimentos bons de ajudar os seus parentes e suas comunidades, mostrando como o território brasileiro é tão rico em conhecimentos e práticas.

Para baixar o livro Remédios do Mato, CLIQUE AQUI.

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