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Ver-O-Peso: memória, plantas e luta!

Por

Gilberto C. Oliveira

Revisão: Leopoldo C. Baratto

O Mercado Ver-O-Peso, maior feira livre da América Latina, está localizado na capital Belém, do estado do Pará. Sua história começa no século XVII, quando foi criado um porto para fiscalizar e controlar as rotas comerciais da época, sendo uma das atividades, a verificação dos pesos da mercadoria. A partir disso, o nome “casa do haver-o-peso” começou a ser utilizado. Funcionou até meados de 1839, sendo a casa extinta e deixada apenas para a venda de peixes. Houve uma grande transformação na “era da borracha”, pois houveram diversos investimentos em urbanização, gerando a construção do Mercado de Carne e Mercado de Peixe, em 1899, com os padrões de arquitetura europeus da época – a Belle Époque. Desde então, foram acontecendo diversos movimentos na história que culminaram em disputas territoriais, lutas por direitos da população, baixos investimentos e até mesmo abandono por parte do Estado. Mas o mercado continuou em pé, com os mais variados tipos de produtos sendo comercializados, tendo suas áreas centrais com os mercados de carne e de peixe, e ao redor, diversas bancas comercializando produtos da região, em especial plantas medicinais e alimentícias. Ao todo, são 80 barracas de ervas e mais de 100 erveiros no local. O conhecimento tradicional a respeito das plantas medicinais destes erveiros é considerado patrimônio cultural de natureza imaterial.

Em 1977, o conjunto arquitetônico e paisagístico do Ver-o-Peso foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e desde então é o principal cartão-postal de Belém, e também onde se pode encontrar diversas histórias que perpassam a construção e modificação social da capital. O Ver-O-Peso, também é alvo de intenso abandono, por parte do Estado, o que atualmente gera conflitos no território da feira. O último projeto de revitalização do espaço, feito em 2016, ainda não foi implementado pela prefeitura da cidade e os comerciantes do Ver-O-Peso ficam à mercê de diversos problemas, sendo um deles os olhares de diversas empresas que procuram produtos do mercado para seus portfólios, entre eles priprioca, cumaru e pataqueira.

Em novembro de 2019, foi realizada, no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma palestra “Plantas e Gente no Ver-o-Peso: desafios à proteção de conhecimentos tradicionais no maior mercado popular do Brasil”, com as palestrantes Profa. Dra. Luciana Carvalho, antropóloga da Universidade Federal do Oeste do Pará-UFOPA, e Dona Miraci Trindade, representante da Associação Ver-as-Ervas. Ambas relataram descasos por parte de empresas de cosméticos que procuram os chamados detentores de conhecimento tradicional para registrar produtos amazônicos, com relações jurídicas muitas vezes duvidosas e sem aprovação de todos os comerciantes. Um exemplo é a forma de repartição de benefícios proposto pelas empresas, que somente faziam repasses mediante apresentação de projetos. Os erveiros não tinham acesso direto ao dinheiro, que era o desejo dos associados. Dona Miraci deixou claro o quanto foi prejudicial os efeitos da chegada dessas empresas no Ver-o-peso, causando discórdia entre os próprios comerciantes e não deixando claro as suas intenções. Prof. Luciana deu seu depoimento sobre o aspecto jurídico das diversas brigas sobre conhecimento tradicional das erveiras e a obtenção de registros de produtos amazônicos pelas empresas, o quanto foi desgastante e é uma relação de extremo cuidado e atenção, que se desenrola até os dias atuais. O conhecimento tradicional pertence às comunidades que os detêm. As erveiras e erveiros do Ver-as-Ervas no Ver-O-Peso continuam na luta buscando uma forma justa de receber os benefícios explorados pelas indústrias.

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