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Ayurveda é Ciência, não mágica!

Por

Nina C. Barboza da Silva

Nos últimos dois meses muito ouvimos sobre receitas milagrosas do Ayurveda para aumentar a imunidade neste período da pandemia de COVID-19: cúrcuma pra cá, gengibre com limão pra lá, até a nossa boa pimenta-do-reino foi renomeada de pimenta preta nas dezenas de receitas encontradas na internet. Numa postagem do Ministério AYUSH indiano, que circulou pelas mídias sociais, estão recomendações de como melhorar a saúde como um todo e também aumentar as defesas do organismo. Além das plantas que estão fazendo “sucesso” por aqui, há menção a uma outra espécie pouco conhecida entre nós brasileiros, mas muito importante no Ayruveda e na cultura Hindu: o Tulsi.

O Tulsi corresponde à espécie botânica Ocimum tenuiflorum L.  (sinonímia: O. sanctum L.), pertencente à família Lamiaceae, a qual é considerada a manifestação do deus Vishnu no hinduísmo, provável razão pela qual um de seus nomes populares seja Visnuvallabha (“amado por Vishnu”). Esta planta, que é um arbusto de 0,5 a 1 m de altura, pode ser encontrada cultivada em muitos jardins e cresce também espontaneamente nos campos indianos. Nativa da Índia, existem variedades de Tulsi com folhas e flores roxas, chamada de “Krishna Tulsi”, e com folhas verdes e flores brancas, chamadas de “Rama Tulsi”.  Eu encontrei o Tulsi plantado no jardim da entrada de um dos hospitais que visitei e crescendo nos arredores do campus da Instituição onde fiquei estudando, na cidade de Coimbatore, no sul da Índia.

Embora as plantas com flores como mandāra, kunda [...] estejam cheias de fragrância transcendental, elas ainda estão conscientes das sérias qualidades realizadas por tulasi, pois tulasi recebe preferência especial do Senhor, que se adorna com folhas de  tulasi” (Srimad Bhagavatam, 4: 15:19). Estes versos demonstram a importância desta planta que, de acordo com os textos clássicos ayurvédicos, possui propriedades incomparáveis a nenhuma outra espécie, sendo indicada para tratar doenças de pele, genitourinárias, dores abdominais, indigestão, tosse decorrente de distúrbios de Kapha dosha, asma, soluços e conjuntivite. Para cada uma dessas indicações existe uma forma correta de preparo e obtenção dos remédios, sendo que não só as folhas podem ser usadas, mas também as raízes.

Os principais constituintes químicos encontrados no Tulsi são de natureza terpênica, tais como eugenol, linalol, limoneno, carvacrol, beta-cariofileno. Estudos in vitro e in vivo têm demonstrado que o Tulsi apresenta atividade antibacteriana, antifúngica, antiespasmódica, hepatoprotetora e redutora dos níveis de glicose no sangue. No entanto, dentre todas as propriedades, uma em especial vem chamando a atenção: sua marcada capacidade adaptogênica. Plantas adaptógenas são aquelas que auxiliam o corpo, de uma maneira não específica, a resistir a situações de estresse, promovendo a manutenção do equilíbrio homeostático. Devido a esta propriedade, o Tulsi foi uma das plantas recomendadas pelo ministério da saúde indiano para a população local.

Devemos sempre lembrar que no Ayurveda o foco não está em tratar a doença, mas sim em tratar a pessoa. Portanto, a recomendação da ingestão do chá de Tulsi acrescido de canela, pimenta-do-reino e gengibre seco (que no Ayurveda é uma droga diferente do gengibre fresco) não promete ser “uma bomba imunológica”. Cabe neste momento refletirmos que a saúde na visão da medicina Ayurvédica é resultado de uma série de atitudes constantes e não apenas fruto do uso isolado de plantas. Por isso, essa recomendação vem acompanhada de práticas de respiração, exercícios, meditação, cuidados alimentares e outras ações que promovam o equilíbrio do nosso corpo e mente. Ayurveda é Ciência, não é mágica! Acredite na Ciência, busque informações em fontes seguras e cuide de você de forma integral! Um chazinho é também uma forma de carinho com o corpo e isso, neste momento de distanciamento social, é fundamental!

Tulsi (Ocimum tenuiflorum, Lamiaceae)

(Fonte: Acervo pessoal da autora)

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