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Kusumāyurveda: o uso das flores no Ayurveda

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Por

Nina C. Barboza da Silva

A flor é um símbolo de bem-aventurança, néctar e abertura da consciência, jogo amoroso da natureza, beleza, doçura e amor. Além disso, as flores estão presentes em romances, rituais, diferentes religiões e são utilizadas pelo ser humano para embelezar seu ambiente. Além dos fins decorativos, as flores também são utilizadas como alimento e medicamento.

A palavra em sânscrito “Kusuma” significa flor tendo como sinônimos Pushpa, Sumana e Prasoona. Na literatura védica as flores são utilizadas principalmente para adoração aos deuses e a elas é dada a mesma importância dada aos mantras na obtenção de uma vida onde a conduta pessoal deve ser “pura e limpa como uma flor”.

O ramo do Ayurveda onde as flores são usadas para a manutenção da saúde, tratando do embelezamento de aspectos somáticos e psicológicos do ser humano, é chamado de “Kusumāyurveda”. Esse conceito foi apresentado pelo monge jainista Kumudendu Acharya em sua obra “Siribhoovalaya”. Escrito provavelmente entre os anos 820 e 840, este texto mencionava o uso das flores para a conversão de metais comuns em metais nobres (dhatuvada) e para uso medicinal interno (dehavada). Uma curiosidade sobre este livro é que ele foi escrito de uma forma única, utilizando números em Canarês (ou Kannada) organizados em diferentes padrões, e que podem ser decodificados em mais de 700 idiomas. Descrições detalhadas das flores aparecem em um outro texto, o “Kalyana karaka”, escrito pelo também monge jainista Ugradithy Acharya, que contém informações sobre o uso de flores em várias condições de doença. Estes monges jainistas são vistos como os pioneiros do “Kusumāyurveda”, também chamado de “Puspa Ayurveda” ou terapia floral.

Assim como na botânica moderna, nos textos clássicos do Ayurveda as flores são utilizadas como ferramentas para classificação, como é o caso da separação entre as plantas que não possuem flores (Gimnospermas), chamadas de Vanasapti, e aquelas que possuem flores e frutos verdadeiros (Angiospermas), chamadas de Vanaspatya. São ferramentas fenológicas na demarcação das diferentes estações do ano. A primavera indiana (Vasanta) é marcada pelo surgimento das flores de Kimshuka (Butea monosperma (Lam.) Taub.), Bakula (Manilkara kauki (L.) Dubard) e Ashoka (Saraca asoca (Roxb.) Willd.). O inverno (Hemanta) é a vez das flores de Punnag (Calophyllum inophyllum L.) e Priyangu (Callicarpa macrophylla Vahl). Já a estação chuvosa (Varsha) é quando as flores das espécies aquáticas Kumuda e Nilopala (ambas do gênero Nymphaea spp) surgem.

Nos textos clássicos do Ayurveda encontramos descrições de diferentes formulações à base de flores para o tratamento de doenças e também para a manutenção da saúde, visando o conforto e a satisfação do indivíduo através de procedimentos que fazem parte tanto na rotina diária de saúde (Dinacharya) quanto na rotina de cuidados ao longo das estações do ano (Ritucharya). As flores contribuem para manutenção da vida, nutrindo o corpo e dando força aos órgãos dos sentidos, não apenas pelo seu caráter estético, mas também pelas propriedades nutritivas e medicinais.

As flores empregadas na terapia floral são processadas sobre vários métodos. Podem ser comidas diretamente como pétalas ou transformadas em suco, tinturas, decocção ou misturadas com outros ingredientes e então administradas ao paciente. Podem ser empregadas ainda na forma de Darsanam (o paciente é aconselhado a concentrar sua mente olhando para uma determinada flor, com uma cor escolhida de acordo com a sua necessidade); Sparsha Vidhanam (o paciente é aconselhado a usar vestimentas de flores, colocar pulseiras, colares etc. feitos de flores ou deitar em uma cama de flores); Alepana Vidhanam (uma pasta feita de flores, isoladas ou misturadas com outros ingredientes, é aplicada por todo o corpo ou em uma parte específica do paciente); e Aghrana Vidhanam ou Nasya Vidhanam (quando o paciente inala o odor da flor ou tem gotas do seu óleo aplicadas nas narinas).

Considerando que no Ayurveda a alimentação é um dos principais fatores que regulam nosso corpo e mente, sustentando a saúde e a felicidade, o consumo das flores como alimento não se restringe a utilizá-las na culinária, mas também para tornar a comida mais atraente, palatável e apropriada para o consumo. O uso dos estigmas do açafrão (Crocus sativus L.) é um exemplo do uso culinário de flores. Outro exemplo encontrado nos textos de Kusumāyurveda é o consumo da inflorescência da bananeira, que por aqui conhecemos como “coração da bananeira” e só recentemente vem ganhando destaque na culinária local.

O uso das flores do ponto de vista estético está relacionado com sua ação sobre a psique dos indivíduos, pacificando os aspectos relacionados à mente humana. Vimos na coluna do mês passado várias situações em que o uso de flores como adorno tem todo um significado simbólico especial na cultura indiana.