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Luteína: o pigmento da saúde da pele e dos olhos

Por

Carla Cotta

Revisão: Leopoldo C. Baratto

Os carotenoides, nos vegetais, desempenham um papel fotossintético importante, em que funcionam como pigmentos na região espectral azul esverdeada. O β-caroteno e o licopeno são exemplos de carotenos, enquanto a luteína e a zeaxantina são xantofilas.  A luteína é um tetraterpeno, pertencente ao grande grupo de pigmentos carotenoides, de cor amarela, lipossolúvel, comumente encontrado em diversas frutas, legumes coloridos e também nas gemas de ovos. Esta substância tem muito interesse médico por seu papel fundamental no desempenho da acuidade visual e na redução do risco de degeneração macular, principalmente relacionada à idade.

A estrutura da luteína contém 40 carbonos, é composta por ligações duplas conjugadas alternadas com ligações simples ao longo da sua cadeia carbônica. A molécula é terminada por um anel contendo oxigênio em cada lado. As xantofilas são sintetizadas a partir dos carotenos, por meio de reações de hidroxilação e epoxidação.

Estrutura química da luteína

A luteína não é sintetizada no organismo humano e, por isso, deve ser obtida através da ingestão diária de alimentos que a contêm. Existem cerca de 700 carotenoides que já foram caracterizados na natureza. Destes, aproximadamente 20 a 30 já foram identificados no sangue e nos tecidos humanos, após absorção, mas apenas a luteína e a zeaxantina são encontrados pontualmente nos olhos.


Fontes alimentares de luteína:

A luteína é abundante em vegetais de cor amarela e folhosas verde-escuras, como a couve, alfaces, kale, espinafre, brócolis, além de outros, onde a sua cor amarela alaranjada é mascarada pela cor verde dominante da clorofila. Alguns alimentos amarelados como milho, pimentas e pistaches também são boas fontes desta xantofila. Uma curiosidade é que as flores amareladas ou alaranjadas da espécie conhecida como capuchinha (Tropaeolum majus), que é considerada uma planta alimentícia não-convencional (PANC), são também excelentes fontes de luteína.

A tabela seguinte mostra o teor de luteína na forma trans (µg por 100 g) em alguns alimentos.

Benefícios, absorção, biodisponibilidade e aplicações:

A comunidade científica tem considerado os alimentos ricos em luteína como alimentos funcionais. A molécula atua sobre a pele, tendo efeito antioxidante, reduzindo a peroxidação lipídica na barreira cutânea, assim como os danos causados pelos radicais livres gerados pela exposição aos raios ultravioletas, sobretudo raios UVB, que pode levar ao envelhecimento precoce. Rugosidade e descamação foram melhoradas pela suplementação com luteína e Vitamina E.

A luteína e zeaxantina acumulam-se preferencialmente na mácula lútea, área especializada no centro da retina responsável pela visão nítida, protegendo a retina contra os danos foto-oxidativos da luz UV. A luteína também filtra os comprimentos de onda azuis, de alta energia, do espectro de luz visível. Julga-se que a luz azul, tanto da iluminação interior como a do sol, provoca estresse oxidativo e possivelmente lesões causadas pelos radicais livres nos órgãos humanos expostos à luz, como os olhos e a pele. Onde encontramos a luz azul? Além da luz solar, à qual estamos expostos durante o dia, a luz azul está presente nos LEDs que iluminam smartphones, tablets e computadores e também nas lâmpadas fluorescentes. Ou seja, durante praticamente todo o dia estamos expostos a ela.

Em relação a biodisponibilidade da luteína, cabe ressaltar que devido às características lipofílicas do pigmento, é sempre importante consumir lipídeos, como por exemplo azeite, simultaneamente com o consumo de alimentos ricos em carotenoides, a fim de otimizar a absorção deste nutriente. A biodisponibilidade dos carotenoides pode ser reduzida quando consumidos, na mesma refeição, com fibras alimentares proveniente de alimentos vegetais (como frutas e legumes), como a pectina e a goma guar. Um outro aspecto a ser destacado é que o cozimento dos alimentos vegetais contendo carotenoides pode reduzir as quantidades desse nutriente, no entanto, aumenta a sua biodisponibilidade. A biodisponibilidade da luteína no ovo é maior do que nos vegetais e isso acontece muito provavelmente devido à presença de lipídios e gorduras presentes nas gemas.

Os carotenoides alimentares são incorporados e absorvidos através de micelas lipídicas. Estudos mostraram que as glicoproteínas SR-BI (scavenger receptor class B member 1) e CD36 localizadas na superfície de células intestinais facilitam a absorção e o transporte dos carotenoides. No fígado, os carotenoides eventualmente poderão ser modificados antes de serem transportados para a corrente sanguínea. A luteína é transportada no sangue preferencialmente pela HDL (lipoproteína de alta densidade). O SR-BI do epitélio pigmentar da retina facilita a absorção da luteína nos olhos e a proteína de ligação ao interfoto receptor retinoide (IRBP) pode facilitar o transporte de luteína para as células da retina.

Estudos de diversos autores demonstram que existe uma relação direta entre aumento do consumo desses dois pigmentos (luteína e zeaxantina) com o aumento da pigmentação da mácula. Sendo assim, quanto mais você consome dos dois, maior será a concentração na mácula. Evidências também sugerem que a degeneração macular, catarata e alta sensibilidade à luz podem talvez ser prevenidas ou desaceleradas caso exista um aumento na ingestão de luteína e zeaxantina.

A luz azul penetra as camadas mais profundas da pele, assim como também pode causar danos à retina.

A mácula está no centro da retina, indicada pela seta. Quanto maior a pigmentação amarela, maior acúmulo de xantofilas. A mácula é responsável pela nitidez da visão.

Recomendações e conclusões:

Recomendações diárias oficiais para consumo de luteína ainda não estão estabelecidas. No entanto, compilando dados de diversos autores e estudos, sugere-se uma ingestão média de 6 a 10 mg por dia tanto para homens como para mulheres, visando reduzir o risco de degeneração macular relacionada à idade. Para se ter uma ideia, o consumo médio de luteína na população norte-americana é de 1 a 2 mg ao dia. Estudos sistemáticos verificaram ser bastante seguro o consumo de até 20 mg de luteína ao dia, porém, poucos autores avaliaram o consumo crônico e seus possíveis efeitos colaterais. Há benefícios reconhecidos e evidências de que a suplementação de luteína protege de danos e efeitos dos raios UVB e espectros de luz azul e proporciona ação antioxidante potente. Portanto, para garantir a dose diária de luteína deve-se estimular o maior consumo de fontes vegetais e outros alimentos fontes para mais benefícios antioxidantes e prevenção de degeneração macular, além de outros benefícios para a saúde.

Caso você tenha uma alimentação equilibrada, com a presença de uma variedade de alimentos vegetais incluindo boa oferta de vegetais verde-escuros e ovos, talvez não seja necessário consumir suplementos de luteína. Em casos de pessoas que costumam ter péssimos hábitos alimentares, trabalhem em meios super estressantes para o corpo (minas de carvão, fábricas poluentes, entre outros) ou que possuam hábitos de tabagismo e inclusive consumo excessivo de bebidas alcoólicas, a suplementação poderá ofertar vantagens e relevância, já que os danos oxidativos e radicais livres no corpo podem diminuir muito os níveis dos dois pigmentos em taxas que superem muito a ingestão alimentar.

Cada indivíduo é único e necessidades específicas de suplementação devem ser avaliadas caso a caso com a supervisão de um profissional capacitado para prescrição do melhor tratamento.

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