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O doce do alcaçuz sem açúcar

Por

Hélio de Mattos Alves

O regaliz (Glycyrrhiza glabra L.), mais conhecido aqui no Brasil como alcaçuz, é uma espécie vegetal pertencente à família Fabaceae. Glycyrrhiza significa em grego “raiz doce” e glabra refere-se às vagens das sementes que são lisas (glabras). Na Medicina Tradicional Chinesa é conhecida como “gan zao” e na China a espécie mais utilizada é a Glycyrrhiza uralensis. Suas propriedades medicinais são conhecidas há mais de 3.000 anos, sendo citado em papiros egípcios, escritos assírios e chineses. Os egípcios cultivavam a planta devido às virtudes terapêuticas e suas raízes foram encontradas em tumbas, junto com os tesouros do rei Tuts. Foi citado por Teofrasto no ano 310 a.C. e Hipócrates a indicava para tratar tosse, asma e outras doenças respiratórias, denominando-a de raiz doce (Glukos riza). Foi também utilizado por Dioscórides e pelos romanos. Durante os séculos XIV e XV se espalhou pelo mundo. No século XVII foi amplamente utilizada em casos de tuberculose e infecções urinárias pelo herbalista inglês Nicolas Culpeper.

O sabor doce da raiz é causado pela glicirrizina, também chamada de ácido glicirrizínico (uma saponina triterpênica), que é 30 a 50 vezes mais doce que a sacarose, e seu xarope  é usado em  confeitaria, em medicamentos para tosse e na produção de alguns tipos de cerveja. A propriedade expectorante do alcaçuz é atribuída ao ácido glicirrizínico, o qual acelera a secreção do muco traqueal através da diminuição da tensão superficial e da viscosidade do muco.

Seu uso contínuo possui algumas contraindicações: não deve ser utilizado por pacientes portadores de hipertensão arterial, desordens cardíacas, renais ou hepáticas, diabetes, neoplasias hormônio-dependentes, glaucoma, hipertonia e hipocalemia. Não deve ser utilizado em crianças menores de 2 anos de idade. Em estudos em animais e mulheres grávidas, o fármaco provocou anomalias fetais, havendo clara evidência de risco para o feto. Portanto, a planta ou seus medicamentos fitoterápicos não devem ser utilizados por mulheres grávidas ou que pretendem ficar grávidas durante o tratamento. Também não se indica o uso por lactentes.  O uso do alcaçuz pode interferir com tratamentos hormonais, assim como com terapias hipoglicemiantes devido ao sinergismo entre a insulina e o ácido glicirrizínico, o qual resulta em hipocalemia e retenção de sódio. A sua administração é incompatível com tratamentos anti-hipertensivos e com corticoides, uma vez que o ácido glicirrizínico promove hipertensão e edema pela retenção de sódio. Potencializa a toxicidade dos glicosídeos cardiotônicos, como os digitálicos (exemplo: digoxina), devido à redução de potássio no sangue. Não deve ser utilizado também juntamente com drogas antiarrítmicas como a procainamida e a quinidina. O seu uso com laxantes contendo cáscara-sagrada e óleo mineral aumenta a perda de potássio. Não deve ser utilizado simultaneamente com diuréticos. Os efeitos dos inibidores da monoamino-oxidase podem ser exacerbados quando utilizados em conjunto com alcaçuz.

O alcaçuz é mais um exemplo de planta medicinal muito importante na Fitoterapia. No entanto, o seu uso deve ser racional, uma vez que apresenta inúmeros efeitos adversos e contraindicações.

Partes aéreas de G. glabra

Raízes de G. glabra

Glicirrizina, saponina triterpênica marcadora da G. glabra

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