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Os perigos do uso do chá verde como suplemento alimentar

Por

Hélio de Mattos Alves

O chá verde é obtido a partir da secagem de folhas de Camellia sinensis (Theaceae). Em algumas variedades como o japonês, o Gyokuro contém 12 a 15 mg por 100 mL de cafeína. Os polifenólicos estão presentes também em grandes quantidades:  epigalocatequina 3-galato (EGCG) entre 117 a 442 mg/l, epicatequina 3-galato (EGC) na faixa de  203 para 471 mg/l, epigalocatequina (ECG) entre 16,9 a 150 mg/l, epicatequina (EC) na faixa de  25 a 81 mg/l e catequina (C) de  9,03 a 115 mg/l. No mercado brasileiro o chá verde é vendido como suplemento alimentar - e não como medicamento fitoterápico - em cápsulas de 500 mg de extrato seco, com 50% de polifenóis, segundo as embalagens. Em geral, para fins de emagrecimento, o usuário chega a consumir de 2 a 4 cápsulas por dia.  Esse é um mercado que mundialmente chega aos 500 bilhões de reais ao ano, com uma propaganda intensiva e ofensiva nas diversas mídias. Recentemente uma pesquisa da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) concluiu que as catequinas presentes em bebidas à base de chá verde e utilizadas como suplementos, com doses de 800 mg ou mais por dia, acabam causando sérios problemas de saúde. Pelo menos 80 casos de lesões hepáticas ligadas ao produto foram registrados em todo o mundo - de lassidão (cansaço extremo) e icterícia a casos que exigem transplante de fígado, provavelmente causados pelas altas doses diárias de epigalocatequina-3-galato (EGCG). Mais estudos estão sendo realizados sobre os efeitos das altas dosagens das EGCG do chá verde e uma rotulagem com mais dados dos produtos, com o conteúdo de catequinas e seus possíveis riscos à saúde. Em 2016 uma adolescente de 16 anos acabou hospitalizada no Reino Unido, após consumir chá verde em excesso, que ela comprou online, como parte de um programa de emagrecimento. Nesse programa ela fazia a ingestão de cerca de três xícaras da bebida por dia, durante três meses. Após esse período ela começou a sentir tontura e dor de estômago. O diagnóstico inicial foi de infecção urinária, após várias doses de antibióticos e até o aparecimento de mais sintomas (ela começou a mostrar sinais de icterícia – quando a pele fica amarelada), foi enviada para um hospital, onde foi diagnosticado que ela estava com um tipo de hepatite que é induzida pelo uso excessivo de chá verde, devido à sobrecarga do fígado, dificultando seu trabalho de eliminação de toxinas do organismo. A Sociedade Brasileira de Hepatologia em seu alerta esclarece que: “Na literatura há 34 casos de hepatotoxicidade relacionada à ingestão deste chá, os quais foram descritos entre 1999 e 2008.  A lesão hepática geralmente é do tipo hepatocelular, de evolução benigna, mas hepatite fulminante é descrita. Os metabólitos reativos são as catequinas, sendo que a sua forma de extração e preparação favorecem a hepatotoxicidade. Esta praticamente inexiste quando o chá é manipulado de forma tradicional, com água fervente, ao contrário dos produtos industrializados que fornecem o chá nas preparações em cápsulas ou fazem seu preparo com extratos hidroalcoólicos. A nossa experiência com essa substância induzindo doença hepática restringe-se a dois pacientes: um com hepatite colestática, que evoluiu para cura de modo lento necessitando quatro meses para normalização dos exames hepáticos e um com quadro citotóxico que normalizou seus exames em 30 dias após suspensão da droga”. Testada em hepatócitos de fígado de rato isolados, a epigalocatequina 3-galato (EGCG) manifestou citotoxicidade, cujo mecanismo parece envolver toxicidade mitocondrial e formação de espécies reativas de oxigênio. Além de EGCG, epicatequina 3-galato (EGC)  e outros componentes do chá verde mostraram-se igualmente citotóxicos, porém menos potentes em comparação a EGCG.  A hepatotoxicidade da EGCG foi também demonstrada in vivo. Administrada na dose de aproximadamente 120 mg/kg, por via intraperitoneal (i.p.), em camundongos, causou aumento significante dos níveis da enzima alanina aminotransferase (ALT) no plasma, comparado ao controle. Na dose de 150 mg/kg (i.p.), EGCG causou a morte de 100% dos camundongos tratados em menos de 24 horas.  A Farmacopeia dos Estados Unidos (USP) incluiu uma declaração de cautela sobre o chá verde indicando a possibilidade de hepatotoxicidade. O alto consumo de cápsulas de extrato seco de chá verde e seus efeitos hepatotóxicos sugerem a necessidade urgente da ANVISA estabelecer, à semelhança da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), estudos sobre o consumo no Brasil e alertas sobre os efeitos sobre a saúde da sua utilização em altas dosagens.

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