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Uva passa: em tudo ou em nada?

Por

Fernanda Mariath

Revisão: Leopoldo C. Baratto

O Natal é uma festa cheia de tradições: decorar a árvore, trocar presentes, arrumar os armários, doar, ações de generosidade, pendurar os pisca-pisca... Mas aqui em casa uma tradição certa é a discussão em torno da uva-passa: em tudo ou em nada? A uva-passa, com certeza, é uma das comidas natalinas que mais dividem opiniões. Temos os que amam, que querem colocar no arroz, na farofa, no salpicão, no panetone e em todos os lugares possíveis, e os que odeiam, que não querem nem que chegue perto do seu prato.

Infelizmente, esse ano com a pandemia de Covid-19, não iremos reunir a família toda para a ceia, então optamos por comemorações virtuais como forma de cuidado e carinho entre todos nós. Assim, a ceia vai ser apenas nós quatro (eu, meus pais e meu irmão). A minha mãe, a única amante de uva-passa na casa, já perdeu mesmo antes dos preparativos da ceia.

Amando ou não uvas-passas, é preciso reconhecer que elas estão presentes desde a pré-história. As uvas caiam das videiras e secavam naturalmente no solo, expostas ao sol. Ao provar essas uvas desidratadas pelo sol, o homem dessa época as incorporou em sua alimentação pelo seu sabor adocicado e agradável. Depois, assumiram lugar de destaque na dieta dos povos egípcios, hebreus, mesopotâmicos e romanos.

As uvas-passas variam de acordo com a variedade, cor e tamanho da uva de origem, sendo basicamente uma uva desidratada e podendo ser pretas, douradas ou moscatel. As mais comuns são as obtidas de uvas Thompson sem semente. Apesar de serem compostas por 60% de açúcar, diversos estudos têm demonstrado que oferecem diversos benefícios na nossa saúde.

Elas são ricas em fibras e compostos fenólicos, apresentando uma ótima atividade antioxidante, observada em estudos in vitro e in vivo. A atividade antioxidante tem um ótimo potencial em prevenir e diminuir o desenvolvimento de doenças degenerativas, mas mesmo com alguns estudos preliminares em humanos da capacidade antioxidante com o consumo de uvas-passas, ainda são necessários estudos clínicos de longo prazo para avaliar a capacidade desse alimento de reduzir o risco de algumas doenças crônicas.

Mesmo com alto teor de açúcar, o índice glicêmico das uvas-passas é baixo a moderado. O índice glicêmico é, de maneira simplificada, a resposta após a ingestão de alimentos da quantidade do aumento de glicose em nosso sangue. Consumir alimentos de baixo índice glicêmico podem oferecer benefícios na nossa alimentação. Além disso, um pequeno estudo piloto com poucos pacientes, analisou melhora em alguns aspectos da saúde, como redução significativa da pressão diastólica e aumento do potencial antioxidante, de pacientes com diabetes tipo 2 controlada com o consumo de uvas-passas. Ainda são necessários mais estudos e também é importante ressaltar que a alimentação de pacientes diabéticos deve ser sempre orientada por seu médico e/ou nutricionista.

O uso de uvas-passas em pratos salgados também não é uma prática nova. As passas estavam presentes em receitas egípcias de assados, inclusive presente nos banquetes do Rei Salomão. Além de um alimento, há afetividade culinária e toda uma simbologia, representando fartura e prosperidade. E considerando que as festas de fim de ano são um momento de renovação, os alimentos podem trazer a simbologia do que esperamos e desejamos para o ano seguinte. Talvez, aqui em casa, minha mãe já não seja mais voto vencido.

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