Este site pertence a Leopoldo C. Baratto, fundador e coordenador do PlantaCiência. 2019.
 
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Qual a dimensão da riqueza da biodiversidade brasileira?

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Por

Leopoldo C. Baratto

A flora brasileira compreende quase 50 mil espécies de plantas, algas e fungos; destes, mais de 38 mil espécies correspondem a vegetais. Estes impressionantes números (você pode conferir na Flora do Brasil) colocam o país no topo do ranking das maiores biodiversidades do planeta. No entanto, estima-se que nem 10% da flora nativa já foi estudada sob ponto de vista químico ou farmacológico. Além do mais, a cada ano são descobertas 250 novas espécies de plantas! Infelizmente, a natureza não é eterna, não se renova prontamente frente as ações antrópicas que ameaçam o patrimônio genético brasileiro e o conhecimento tradicional associado. O fato é que na guerra contra o desmatamento ilegal estamos sendo derrotados dia após dia, vendo a expansão desenfreada do agronegócio e mineração em áreas de floresta, e com isso muitas plantas que poderiam representar fontes de fármacos, cosméticos, alimentos e outros produtos em geral estão desaparecendo.

Para ilustrar a importância da biodiversidade brasileira, trago alguns exemplos de espécies vegetais que inclusive estão no nosso dia:

A espinheira-santa (Monteverdia ilicifolia, Celastraceae) é talvez uma das plantas medicinais mais conhecidas dos brasileiros. Usada para tratar úlceras estomacais e gastrites, essa planta nativa da região sul e sudeste é validada cientificamente, inclusive com estudos clínicos e resultados superiores ao fármaco omeprazol (ver Qual é a Planta? no número 1 da Revista A Flora). A espinheira-santa foi a única espécie que nos anos 80 teve todas as etapas de estudos concluídos dentro do Programa de Pesquisa de Plantas Medicinais (PPPM) da extinta CEME (Central de Medicamentos).

O guaco (Mikania glomerata/M. laevigata, Asteraceae) é outra planta nativa usada em todo o Brasil como expectorante na forma de infusão das folhas ou xarope comercializado, sendo um dos medicamentos fitoterápicos mais vendidos no país. Historicamente, o guaco é registrado nos diários dos naturalistas que percorreram o país como planta antiofídica (ou seja, usada para tratar picada de cobra). As folhas são ricas em cumarina, substância com propriedades relaxantes da musculatura brônquica e traqueal, além de ser anticoagulante.

A erva-mate (Ilex paraguariensis, Aquifoliaceae) é símbolo cultural dos gaúchos no Rio Grande do Sul, presente diariamente nas cuias de chimarrão e nas rodas de conversa. As folhas contêm saponinas que possuem ação redutora do colesterol e efeito redutor de peso, além de conter cafeína e, portanto, é estimulante.

A erva-baleeira (Varronia curassavica, Boraginaceae) cresce ao longo do litoral sul e sudeste brasileiro, conhecida dos índios para tratar inflamações e dores. Tal conhecimento tradicional deu origem ao primeiro fitoterápico brasileiro, o Acheflan, com potencial anti-inflamatório superior a fármacos sintéticos como diclofenaco de dietilamônio. O princípio ativo é o alfa-humuleno presente no óleo essencial das folhas.

Espécies de maracujá são bastante conhecidas devido às suas propriedades sedativas. Embora muita gente acredite que o suco de maracujá é calmante (não é, embora haja poucas evidências de que os flavonoides presentes no suco poderiam exercer esse efeito!), de fato quem possui efeito sedativo são as partes aéreas, principalmente as folhas, que contêm flavonoides, entre eles a crisina - que atua sobre receptores de GABA no Sistema Nervoso Central -, além de quantidades mínimas de alcaloides beta-carbolínicos que podem atuar sobre receptores serotoninérgicos e inibir a enzima monoamino-oxidase. As principais espécies nativas, inclusive presentes na Farmacopeia Brasileira 6ª edição, são Passiflora alata (Passifloraceae) (maracujá doce, para comer de colher) e P. edulis (Passifloraceae) (maracujá azedo, com o qual fazemos suco).

Por fim, não poderia deixar de comentar sobre o guaraná (Paullinia cupana, Sapindaceae). Suas sementes são provavelmente usadas há milhares de anos pelos índios da Amazônia, que as preparavam na forma de uma bebida estimulante. As sementes eram colhidas, moídas e misturadas em água, formando uma pasta que era moldada na forma de bastões (“bastão de guaraná”) e posteriormente ralada na língua de um peixe – o pirarucu – e então a bebida rica em cafeína era preparada e usada em cerimônias.

Estes exemplos clássicos nos evidenciam o potencial da nossa biodiversidade no desenvolvimento de fitoterápicos. Mas são só apenas 6 exemplos! Temos mais de 38 mil possibilidades para a descoberta de novos produtos. Só a Ciência é capaz de gerar conhecimento, produtos e inovação tecnológica que podem levar qualidade de vida às pessoas, como a cura de doenças. Nas próximas colunas continuaremos falando de outros exemplos de produtos naturais extraídos da nossa biodiversidade que impactaram na história da terapêutica.